terça-feira, 19 de maio de 2009

Cartas


Eu não escrevo cartas, mas se calhar era-me mais fácil escrevê-las e enviar-tas ao invés de escrever e pensar coisas que nunca serei capaz de te dizer cara a cara. De facto, em vários aspectos consigo ter muito pouca audácia. Tenho vindo a ganhar bastante noção de que ficou muito por te dizer, e afinal de contas vai continuar por dizer. Eu queria que tudo tivesse terminado de forma diferente. Sempre te pedi muito pouco, estou farta de referir isto, as minhas palavras já se repetem sucessivas e sucessivas vezes. Mas é a verdade, eu pedi-te muito pouco, apesar de todo o amor que sempre nutri por ti, nunca te exigi o mesmo da tua parte. Nunca. Apenas te pedi, várias vezes, que a nossa amizade nunca terminasse, que fôssemos os melhores amigos, como aconteceu durante os nossos meses, sim, nossos. Sempre me afirmaste que esse sentimento de amizade iria permanecer para sempre, que velhos iríamos estar juntos a rir, sempre como amigos. O meu pensamento nunca voou tão longe assim, afinal de contas para “velhos” ainda é muito tempo, mas imaginava a nossa amizade a perdurar mais uns aninhos. Durante todo o tempo em que foste o meu melhor amigo, eu procurei adormecer o amor que sentia por ti. De certa forma foi uma tentativa falhada, ou talvez não. Quando eu estava contigo, ainda que fosse pelo que era, tu eras um amigo, eu não podia deixar que amores se intrometessem no nosso caminho, isso sempre acaba por estragar tudo. Por isso, deixei de lado essa minha vertente amorosa, sempre procurei manter acesa apenas a chama da amizade, sempre procurei cultivar a amizade, só e só a amizade, e tu sabes bem disso. Mas nem tudo tem um final feliz. Eu não sei quem errou, eu não sei sequer se alguém errou, o que é certo é que não houve um final feliz, nem sequer um final infeliz. Simplesmente, de certa forma, não aconteceu um final. As coisas estagnaram. De um momento para outro, não houve mais nenhuma palavra, mais nenhum sorriso, mais nenhum toque, mais nenhum encontro, mais nenhuma conversa, mais nenhuma amizade. Nem sequer posso dizer que estejamos zangados, isso irrita-me, mas nós nunca nos zangamos por acontecimento algum. Apenas deixamos de falar, queira isso dizer o que quer que seja. Até hoje, permaneço sem compreender. Não há nada em que eu gaste mais tempo a pensar, a minha cabeça permanece absorta a engendrar que raio aconteceu, que raio se passa connosco, a tentar perceber o porquê de termos deixado de ser amigos. Caramba, eu sempre disse “não, ele não há-de ser um bom tipo pa namorar, eu gosto dele, mas não o quero para namorado. Mas amigo, amigo sim, ele é das melhores pessoas que já conheci, eu quero-o como meu melhor amigo, apenas”. Repeti tantas e tantas vezes esta ladainha, eu sabia que era isto o que a minha cabeça e o meu coração ditavam, eu nunca tive quaisquer duvidas, por isso não duvides tu disto. Sabes, não pedi quase nada mesmo, em comparação a tudo o que me poderias dar. Tu, a pouco e pouco, foste-me pedindo muito, sim, pediste. E recordo-me plenamente de me dizeres “agarra-me para sempre porque não te quero perder”. Para mim o “para sempre” seria impossível talvez, mas fiz questão de te agarrar, fiz questão de que não me perdesses. Mas afinal eu não valia assim tanto para ti, não significava tanto assim. Não tiveste problemas em me perder. Arranjaste rapidamente forma de me substituir, mas eu nunca fui capaz de te substituir, mas afinal de contas os significados são diferentes. Mas para mim os amigos não se substituem, se eles saem da minha vida é por iniciativa própria. Tu saíste por tua própria iniciativa, magoaste-me demasiado. Nunca serás capaz de imaginar o quanto, deixaste uma dor tão dilacerante, é demasiado irreal. Na minha cabeça, nunca seria concebível eu vir a sofrer tanto por um homem, mas o que se passa é isso mesmo, eu sofro por um homem. Às vezes quanto mais fortes somos, mais fracos nos apresentamos quando necessitamos de ter toda a força. Se calhar, gastámo-la em situações em que não seria tão necessária, procuramos mostrá-la em todas as situações e o que acontece é que a nossa força é uma energia esgotável. E a minha força para lidar com tudo o que se cinge a ti esgotou-se, eu já não sei ser forte como era usual ser. Tiraste-me as forças ou fui eu que tive que as empreender no total enquanto estive contigo, para não me deixar ir abaixo? Ver-te agora com essa tipa é estranho, eu vejo-te a fazeres com ela o que fizeste comigo, eu vejo-a no meu lugar, eu vejo-a a tomar para ela o que é (ou foi) meu. Engraçado porque enquanto eras meu amigo para mim tornava-se quase aceitável teres outras, eu sabia que não eras meu, mas sabia que eras meu amigo e isso bastava-me. Podias estar com trinta que isso não iria mudar nada (ou quase nada), claro que me fazia confusão, mas lá está, eu tinha a tua amizade (ou assim achava) e isso bastava para me preencher. E afinal de contas eu fui compactuando com o facto de dares atenção a outras, até de te envolveres com outras. Tu eras apenas meu amigo e como tal eu não te exigia seres exclusividade minha. Claro que a forma como nos envolvemos ia para além da amizade, mas mesmo assim não me dava direitos sobre coisa nenhuma, e eu respeitava isso. Durante aqueles meses suspeitei de muita coisa, durante aqueles meses tive quase a certeza que nuns dias estavas comigo, noutros estavas com uma das outras, mas nós só nos envolvíamos na busca de um relacionamento quase físico, eu sei que não eram laços de amor que ali existiam. Mas volto a dizer, eras o meu melhor amigo e isso bastava-me. Mas agora, agora eu já não tenho de suprimir o amor que tenho por ti, já que a amizade já não existe, logo já não tem que ser preservada. E o amor voltou em toda a sua força à superfície, e ao contrário do que eu esperava que acontecesse após o nosso afastamento, ele não se está a esvair, está sim a aumentar. Não sei se alguma vez te disse, mas sempre tive dificuldade em aplicar termos como um ‘amo-te’, ‘amor’, etc. Isto com os que te precederam. Mas contigo nunca tive qualquer receio de os dizer, eu sabia que era isso mesmo que eu sentia, eu sei que te amo, e sou capaz de o afirmar sem pesos na consciência, ao contrário do que fiz com outros antes de ti. Eu não brinco com os sentimentos, eu sempre precisei de aplicar alguma racionalidade nos meus laços afectivos, e contigo perdi alguma dessa racionalidade. Quando entraste na minha vida, de certa forma mudei. Ganhei alguns aspectos positivos, e outros negativos, claro. Com o tempo aprendi a viver com a forma como hoje sou, e em parte tu ajudaste. Trouxeste muito à minha vida, e quando te foste levaste grande parte dela. Sempre representaste um papel importante em tudo o que me envolve, sempre foi tudo feito a pensar em ti, em todos os momentos estavas dentro da minha cabeça, do meu coração, em mim. E agora estás a conseguir destruir-me, eu não consigo dormir, eu não consigo estar concentrada a trabalhar, eu não consigo estar com as minhas amigas sem ficar melancólica pelo que nos aconteceu, eu não consigo sequer escrever como antigamente. As palavras faltam-me, a inspiração foi-se, as frases mais que arquitectadas não surgem. Destruíste a pessoa quase fantástica que eu era, levaste a minha felicidade constante. Antigamente, eu só não ria quando estava a dormir, agora só rio em escassos momentos. Estou demasiado taciturna, duvido de tudo à minha volta, questiono todas as minhas outras amizades, deixei de ser a pessoa alegre que era. Sim, destruíste-me mais do que alguma vez eu pensei alguém vir a fazer, nunca pensei deixar-me levar assim. Não encontro pontos semelhantes entre o agora e o antes. Mudaste imenso, nunca pensei que fosses uma pessoa assim, eu confiava em ti, eu confiava naquilo que eras, naquilo que representavas, eu defendia-te perante tudo e todos. Agora não sei mais a pessoa que és, não encontro paralelismos entre o amigo que conheci e o desconhecido que agora estranho. E pior do que tudo, não me reconheço a mim própria. Só te queria de novo como meu melhor amigo, nada mais.

2 comentários:

Borrega disse...

Brilhante...
Em certos trechos, tal e qual a nha situação, a nha dor...

É tão dificil perder alguém que é tudo o que tens, que é tudo o que és, pois é por ele que vives.
É tão dificil não mais poderes sentir o calor dos lábios desse alguém contra os teus...

Mas passa, tem esperança, um dia, passa.

Bj*

Anónimo disse...

Ultrapassarás este dilema , mais tarde ou mais cedo . Verás que num ápice a alegria que outrora se esvaneceu voltará radiante e com mais força . Apenas precisas de manter a fé que um dia esses sentimentos irão mudar (:
Adorei cada uma das expressões desse teu desabafo , posso dizer que infelizmente muitas dessas se enquadram na minha situação :S

Um beijo , Rita (Parola) *

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