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quarta-feira, 7 de abril de 2010

Entrelaçamos as mãos

Estava uma noite bastante fria. Saímos do seio do grupo de amigos para nos encaminharmos para casa, depois de algumas minis consumidas e alguma dança naquele que era o nosso bar. Já a cidade adormecera há muitas horas atrás. Para minha surpresa, agarraste-me a mão e entrelaçaste os teus dedos nos meus. Corria um vento agreste como eu já não lembrava igual e eu estava a sentir frio, muito frio. Apercebeste-te disso e abraçaste-me fortemente, protegeste-me da aragem gélida que corria. Senti tanto calor humano oriundo de ti. Chegámos a casa, custou-me largar o abraço, mas sabia que iria ter muito mais. Dás-me muito mais, sempre que te tenho nos meus braços, numa retribuição afectiva que encobre todo o espaço de tempo que passo sem ti. São esses pedaços de noite que quero repetir contigo. Dar as mãos. Abraçar-te. Sentir-te junto a mim. Porque até o simples facto de darmos as mãos é especial e único. Já tenho saudades; quando volto a sentir a tua mão entrelaçada na minha?

Eu sei, estou a ficar sentimentalista. Mas a culpa é tua.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Até já, estou no corredor.


Chegas a casa, cansado do trabalho, e nem te lembras de me dar um beijo. Dói. Atiras o casaco para o bengaleiro, mas ele vai parar ao chão e nem o apanhas. Caramba, estou farta de te dizer para não deixares nada desarrumado. Não me importa que não gostes desta minha mania das arrumações, mas padeço desta terrível extravagância. Vais tomar um banho, dizes, e arrastaste-te pelo corredor fora, esse espaço carregado de fotografias simbólicas, que se calhar só o são para mim. Vens para jantar, mas quando é que tencionas perceber que eu não sou a tua empregada e sim a tua mulher. Abraça-me pelo menos, tenho tantas saudades de te sentir a enlaçar-me em ti. Mas já não sabes o que é isso. Sabes que mais? Estou farta, querido, hoje não janto, digo eu e tu dizes Está bem. Podias ao menos perguntar porquê. Mas a tua preocupação comigo já se esgotou há muito. Estás aqui e é como se não estivesses, entendes? Não, não entendes coisa nenhuma do que digo ou penso, e não fazes sequer um esforço para tentar. Já não aguento mais, vou chorar para o corredor, não me apetece olhar para a tua cara, é dia após dia isto e eu não fui feita para viver assim. Acorda desse mundo que é só teu e em que não me deixas penetrar. Eu queria somente ter-te no verdadeiro sentido da palavra, mas o que tenho resume-se a um marido que chega do trabalho, come e vai dormir. Porque se acabaram os tempos em que ficávamos juntos no nosso sofá, bem aconchegados a ver um bom filme. Antes sabias escolher bons filmes, agora nem sequer sabes ver um filme. Vê se percebes que preciso de mais do que um homem cá em casa, preciso de um marido, isso sim. Só te peço que retornem os antigos momentos de partilha a dois, que voltemos ao que éramos no nosso primeiro ano de casamento, porque agora já sem sequer chamo a isto um casamento. Até já, meu amor, vou percorrer cada fotografia de felicidade espelhada que se encontra no nosso corredor, esse álbum de memórias que começa a ser mais meu do que teu.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Amanhã vamos ser felizes?


Amanhã vamos ser felizes? Dá-me a certeza de que sim, de que vamos calcorrear a calçada da rua ali de fora de mãos dadas, esboçando largos sorrisos e fazendo promessas infundadas de eterno amor. Dá-me esse prazer momentâneo, essa sensação de que te terei comigo para sempre, apesar de saber que só existes no presente e que depois serás mera recordação, entre tantos outros, ainda que sobressaias. É sempre assim, eu não consigo conservar aquilo de que gosto e mais tarde ou mais cedo vais-te cansar desta bipolaridade que me afecta a cada minuto que estou contigo. Conheces bem este querer-te desmedido. Mas amanhã, meu amor, vamos ser felizes, eu sei que sim, porque amanha vou acordar bem-disposta, eu sei que sim, sei. E vou beijar-te como se se tratasse novamente da primeira vez que os nossos lábios se tocam nessa união selada que tão bem sabe. Encontramo-nos nesse silêncio sagrado, o olhar por vezes consegue falar mais do que um grande conjunto de palavras. Apesar desse brilho que mostras, eu sei que os teus olhos me mentem, eu sei que eu sou apenas mais um passatempo que consomes até não poderes mais. Enquanto isso, vais procurando o próximo passatempo. Quando o encontrares avisa, sim? No fundo, já deves ter decerto encontrado. Essa outra sem cara nem nome já te preenche as horas vagas, eu sei, e no entanto, ando aqui a fazer figura de ursa a lutar por algo que já não é meu. Os teus olhos mentem, por isso porque tentas-me prender a ti? Eu prendo-me, não te dês ao trabalho, a sério. Mas, oh, amanhã vamos ser felizes, tu vais-me trazer de novo a casa, vais-te sentar ali na escadinha junto a mim. Os vizinhos invejarão o que (agora) temos, serão testemunhas de tudo o que partilhámos. E quando tiveres de ir vais-me abraçar bem, enrolar-me confortavelmente em ti e olvidar tudo o mais que existe no mundo. Mas um dia não vais mais vir por essa rua acima. Nesse dia, digo-te Adeus, está bem? Mas amanhã, amanhã vamos é ser muito felizes.